Liderança Consciente

Quando a experiência começa a contar contra você

Envelhecer não deveria significar desaparecer profissionalmente.

Georgia Herrera4 min de leitura

Assista ao vídeo que originou esta reflexão · 0:54. O texto abaixo aprofunda o tema com evidências e aplicações práticas.

Existe um momento na carreira de muitas mulheres em que aquilo que deveria ampliar seu valor profissional passa a ser interpretado como um problema.

Experiência, repertório, autonomia e segurança para tomar decisões costumam ser associados à maturidade. Depois de certa idade, porém, essas mesmas características podem ganhar outro significado. A experiência passa a levantar dúvidas sobre capacidade de adaptação; a segurança pode ser interpretada como falta de flexibilidade; e uma trajetória mais longa pode fazer surgir a pergunta sobre se aquela profissional estaria disposta ou seria capaz de acompanhar as mudanças.

Será que ela acompanha as mudanças? Tem energia? Vai se adaptar? Não está qualificada demais para a vaga?

As perguntas parecem neutras. Muitas vezes, não são.

Pesquisas experimentais mostram que a idade pode influenciar decisões de contratação. Em um estudo com mais de 40 mil candidaturas fictícias, pesquisadores encontraram evidências robustas de discriminação contra mulheres mais velhas, sobretudo entre aquelas próximas da idade de aposentadoria. (NBER)

A discriminação também pode começar antes mesmo da candidatura. Outro estudo identificou que a linguagem dos anúncios de emprego pode reproduzir estereótipos etários, incentivando alguns profissionais a se candidatarem e afastando outros. (NBER)

No Brasil, pesquisas encontraram evidências de ageísmo no mercado de trabalho entre pessoas com 50 anos ou mais. Os próprios autores, no entanto, destacam que os resultados não podem ser generalizados para todo o mercado. (Portal de Revistas da USP)

Esses dados ajudam a revelar como o problema funciona. Nem sempre alguém diz explicitamente que uma profissional está velha demais. Com mais frequência, a idade altera a interpretação de características que, em outros contextos, seriam vistas como qualidades.

Experiência pode indicar competência, mas também pode ser confundida com resistência. Segurança pode demonstrar liderança, mas ser lida como dificuldade de adaptação. Uma trajetória longa pode revelar repertório, mas também levar alguém a ser considerado “caro demais” antes mesmo da primeira conversa.

É nesse deslocamento de significado que a invisibilidade começa. Não necessariamente porque a profissional tenha deixado de contribuir, mas porque o olhar sobre ela mudou.

A contradição é evidente: enquanto empresas falam em aprendizagem contínua, longevidade profissional e equipes multigeracionais, seus processos de contratação ainda podem reproduzir ideias estreitas sobre quem tem potencial.

Por isso, a pergunta não deveria ser apenas se essa profissional ainda tem o que oferecer. Precisamos também perguntar o que estamos deixando de enxergar quando decidimos, antes mesmo de conhecê-la, o que a idade significa.

Experiência não deveria ter prazo de validade.

Fontes desta reflexão

De onde nasceu este texto — leituras, evidências e pessoas que ajudaram a formar a ideia.

Pesquisas

  • McLaughlin, Joanne; Neumark, David — estudo sobre discriminação etária por gênero, National Bureau of Economic Research (NBER).Evidências de que a discriminação por idade pode ser mais intensa para mulheres.
  • Corrêa, Luciana Silva — pesquisa sobre envelhecimento feminino e etarismo nas organizações brasileiras.Analisa a combinação de sexismo e ageísmo enfrentada por mulheres maduras.
  • Cuiabano, Patricia — pesquisa da Universidade de São Paulo com mulheres executivas entre 50 e 65 anos sobre idadismo no trabalho.Investiga como o idadismo se articula com o sexismo no mundo do trabalho.
  • Estudo sobre trabalhadores de 50 anos ou mais no mercado brasileiro, com evidências de preconceito etário em empresas privadas.Citado no texto como referência ao contexto brasileiro.

Artigos

  • L’Oréal Paris — iniciativa Lessons of Worth (2026): 70% das mulheres acreditam que se tornam invisíveis com a idade.Dado de campanha de marca; não é estatística acadêmica independente.

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